Monday, July 12, 2010

ESPANHA GANHA TÍTULO INÉDITO E SOFRIDO



Um título que nunca havia sido conquistado jamais viria facilmente. Ainda mais para uma seleção que antes nunca havia se saído bem e tinha fama de fracassar na hora H. Não foi assim neste domingo, apesar dos gols perdidos, e de quase ter entregue a partida para um time que não merecia, mas, o que vale é o resultado. E o título finalmente veio. Não sem sofrimento, pois, foram preciso muito mais que noventa minutos. Neles somente o empate. E vieram os 120 que pareciam que levariam os contendores aos pênaltis. Não aconteceu. Quase no final do jogo com apenas uns três a quatro minutos restando Iniesta fez o gol salvador e tirou da garganta e do peito dos espanhóis mais do que o grito de gol. Tirou deles o peso de, apesar de ser um meca do futebol moderno, jamais ter abiscoitado o título mundial. O 1 a 0 sobre a Holanda na prorrogação é um prêmio ao conjunto e, com louvor, a primeira Copa do Mundo na África viu nascer o oitavo campeão da história. Um campeão que não foi espetacular (mas, quem foi?). Muito ao contrário. Foi um campeão de um futebol até meio chato, muitas vezes, pouco objetivo, no entanto, solidário e que jogou como uma equipe de basquete fechando os espaços.
Não foi um jogo bonito de ser visto, pois, as equipes começaram o jogo com os cuidados que existem em todas as finais. Com mais medo do adversário que vontade de atacar. E os artilheiros, no primeiro tempo, não conseguiram ter nem mobilidade nem oportunidade, presos na marcação cerrada que, não poucas vezes, deslanchou para a jogada desleal e a violência. Com um juiz que adotou um sistema próprio de justiça que não agradou a ninguém. Assim, foram poucas as oportunidades e a maioria de longe contra goleiros que estavam muito bem na partida. A Espanha conseguiu ter mais posse de bola, do jeito que gosta, não apenas no primeiro como no segundo tempo (57%) com o seu jogo de passes laterais e até deu 12 chutes, mas, sem conseguir marcar.
No segundo tempo o jogo melhorou com mais chances de parte à parte, mas, a melhor esteve num dos contra-ataques quando Sneijder, até então sumido, acertou um lançamento perfeito para Robben entre dois zagueiros espanhóis. O atacante do Bayern de Munique invadiu a área, cara a cara com Casillas, e chutou, mas a bola bateu no pé do goleiro e foi para escanteio. Robben teve outra grande oportunidades de acabar cim o jogo sozinho diante de Casillas, aos 38 minutos, depois de ganhar de Puyol na corrida. O goleiro saiu bem e evitou o drible, e o holandês reclamou de forma acintosa de falta do zagueiro, recebendo o nono cartão amarelo do jogo. Assim, por má qualidade dos artilheiros e dos ataques voltou a acontecer o que não acontecia desde 1994, quando o Brasil bateu a Itália nos pênaltis, uma final não terminava em 0 a 0 e foi para a prorrogação assim, sob a esperança de que uma das equipes acertasse o pé numa jogada de bola parada. tal tinha sido a falta de oportunidades de gol reais, embora tivessem quase existido não fosse os erros de ambos os lados. Na prorrogação, como se esperava, o bicho pegou. E gols voltaram a ser desperdiçados até que, quando não se esperava mais nada, veio o gol de Iniesta avermelhando o mundo. Festa da Espanha, a nova campeã do mundo.

Ganhou quem mereceu



A disputa do terceiro lugar deste mundial foi uma das melhores partidas, em termos de jogo aberto e busca de gols, com muita movimentação e emoção. Quem começou a partida pressionando muito foi a seleção alemã, principalmente com Özil que, na sua primeira participação, aos dez minutos, já cobrou escanteio na cabeça de Friedrich, que acertou o travessão do goleiro Muslera. No rebote, Müller testou firme, mas Godín salvou o Uruguai. Oito minutos depois, a pressão deu resultado. O polivalente Schweinsteiger soltou um foguete da intermediária e Muslera rebateu nos pés de Müller, tornando-se mais um dos artilheiros da competição, se igualando a David Villa, da Espanha, e Sneijder, da Holanda. Com o gol os uruguaios procuraram mais o jogo e passaram a aproveitar os contra-ataques rápidos. E, num deles a celeste chegou ao empate aos 27min. Schweinsteiger, que participou do primeiro gol alemão, perdeu a bola no meio campo, Fórlan aproveitou e tocou para Suárez, que achou Cavani. Ele entrou na área e tocou na saída de Butt, igualando o marcador. O Uruguai ainda teve a chance da virada no primeiro tempo Suárez, que recebeu belo passe, entrou na área e chutou cruzado, mas a bola passou raspando a trave da Alemanha.
Na segunda etapa os uruguaios viraram a partida, logo aos seis minutos, com o lateral Arévalo cruzando do lado direito uma bola que Forlán, na entrada da área, acertou com um belo chute, de primeira, bem no canto esquerdo de Butt, que nada pode fazer, marcando um golaço. Parecia, naquele momento, que o Uruguai iria aprontar, mas, foi somente uma breve impressão. Três minutos depois num cruzamento de Boateng, o lateral-direito Jansen se aproveitou de uma falha de Muslera e cabeceou firme, para encher as redes uruguaias. Foi mais um gol bobo, mas, não se conta os gols pelas bobagens, ou não. O que conta é a bola na rede. E, com o empate, a Alemanha começou a gostar do jogo e se movimentar mais criando novas oportunidades. Assim, mesmo com a forte marcação e bom ritmo de jogo, a zaga uruguaia voltou a falhar, dando o triunfo para a Alemanha. Foi, aos 37min, quando Özil cobrou um escanteio da direita, Lugano falhou, a bola sai repicando em jogadores dentro da área até que sobrou na cabeça de Khedira, que empurrou para o fundo do barbante sem que Muslera, encoberto, pudesse fazer nada. Bem que, depois, o Uruguai ainda tentou recuperar o prejuízo, mas, não deu. No último minuto Forlan, que foi um dos grandes destaques desta Copa, ainda cobrou uma falta na trave assustando o estádio, mas, a bola saiu. A Alemanha, que voltou a jogar bem, merecia ganhar por ter criado mais, embora a vitória tenha vindo por meio mais de falhas do adversário que da construção de suas jogadas que, quando feitas, não tiveram a finalização adequada. Seu conjunto foi melhor e menos limitado que o uruguaio, apesar do brilho individual de Forlan. Foi um terceiro lugar merecido.

Wednesday, July 07, 2010

E o polvo tinha razão: deu Espanha



Se esta primeira Copa do Mundo na África vai chegando ao seu final devendo em nível técnico, não deve mais nada em termos de surpresas e emoção. Também com as seleções que já foram campeãs, se foram as vuvuzelas, as olas, a torcida, as musas e a festa que marcaram seu tempo, mas, não se poderá, no futuro, deixar de falar sobre o polvo Paul que, pelo menos, em relação à Alemanha acertou 100% das predições. Ó animal danado e azarento para a equipe alemã. Mas, a grande realidade é que a Alemanha esteve longe de lembrar a equipe que enfrentou a Argentina nas quartas de final. Méritos, é também verdade, para a Espanha que não deixou espaços para jogar. O que se viu no no jogo foi uma Fúria marcando no campo de ataque, tendo a posse de bola e mandando na partida. Até as chances de gols, logo no início, foram da Espanha e o artilheiro Villa teve uma grande chance que foi parar nas mãos do excelente Neuer. Puyol também chegou a assustar de cabeça, depois da cobrança de escanteio. Como consolo os alemães passaram a arriscar de longe. Trochowski disparou um chute de esquerda, do meio da rua, e Casillas espalmou. Os alemães chiaram sem razão sobre um pênalti em cima de Özil. O meia recebeu passe em profundidade e esbarrou nos zagueiros. O lance foi alvo de muita reclamação, mas, o árbitro indiferente mandou seguir. Terminou o primeiro tempo a Espanha muito melhor com mais posse de bola e mais chutes ao gol.
Para quem pensava que o segundo tempo poderia ser diferente logo, aos cinco minutos de jogo, o jovem Pedro encontrou Villa em condições de marcar. O artilheiro do recebeu e preparou, porém, foi abafado pelo goleirão da Alemanha. A Alemanha recebeu o aviso de que a Espanha pretendia chegar à final. E o jogo prosseguiu dando Fúria. Aos 13 minutos, Iniesta, que parecia estar em todo o campocruzou da direita. Puyol subiu bonito, subiu alto, subiu como sobem os zagueiros que marcarão o gol. O cabeceio dele foi um tiro. Mas a bala foi perdida. A bola passou por cima do gol de Neuer, gerando um grito de delírio coletivo. A Alemanha, aos poucos, se controlou e parecia capaz de barrar o ânimo espanhol. “La Roja” viu suas ameaças de gol serem mais raras, todavia, os alemães foram incapazes de se acertar, de encontrar a mesma criatividade de outros jogos. Até ensaiaram, em três contra-ataques com o veneno habitual e acabaram se enrolando nas próprias pernas. A Alemanha ficou resumida a cruzamentos e só assustou uma vez. Muito pouco para quem quer ser campeão do mundo. Não vale a pena lembrar as oportunidades que a Espanha desperdiçou, mas, o gol salvador veio. Aos 27 minutos, Xavi cobrou escanteio e Puyol subiu mais alto que os grandalhões germânicos e bateu com força e precisão. Quem não irá esquecer disto é o goleiro Neuer que viu, sem puder fazer nada, a bola explodir no barbante. Golaço. E, para o desespero alemão, o povo Paul tinha razão. Para o bem do futebol mundial dois países que já mereciam ter tido uma sorte melhor irão disputar a final. Ave jabulani!

Tuesday, July 06, 2010

A Laranja descasca a Celeste



Não. Não foi tão fácil como se poderia pensar, mas, a Holanda chegou mais uma vez a final de uma Copa do Mundo. E, quem verifica que chegou com 100% de aproveitamento não pode deixar de reconhecer que o foi de forma merecida. No jogo com o Uruguai durante todo o primeiro tempo, embora muitos possam achar que não jogaram lá essas coisas, tocaram a bola de pé em pé, buscando um espaço, uma brecha que fosse, para tentar penetrar no paredão celeste. Não se pode subestimar a equipe sul-americana, que, malgrado, suas limitações, é aguerrida, sabe se fechar bem e conseguia brecar as investidas laranja sempre tentando encaixar um contra-ataque. Um jogo deste tipo vira uma partida tática ou da espera de um erro ou de uma jogada que desequilibre. No Uruguai faltava o acerto no passe. Forlán e Cavani só viam a bola passando por cima sem poder pegar uma bola que permitisse surpreender os grandalhões holandeses. A diferença foi mesmo que Van Bronckhorst encaixou, de fora da área, um petardo que a má colocação do goleiro impediu que pegasse. Para surpresa geral o Uruguai empatou dando o troco com Forlan, quase no fim do primeiro tempo.
No segundo tempo o jogo começou mais solto e qualquer coisa parecia que poderia acontecer. Uma vez mais a Holanda foi bafejada pela sorte (e para se ser campeão do mundo também é preciso ter sorte), pois, Sneijder chutou uma bola que resvalou nos zagueiros e, de forma improvável, entrou. Um gol espírita meio enviesado. Também cercado de polêmica. O s uruguaios reclamaram de impedimento de Van Persie com razão na medida em que mesmo se não chegou a tocar na bola participou, indiretamente, do lance em posição ilegal. Os erros de arbitragem fazem também parte do esporte e não há como evitá-los, supõe-se, sem os meios eletrônicos. Os uruguaios sentiram e, para piorar, depois da queda veio coice. Logo aos 28, veio mais um, ou seja, três minutos depois, Kuyt recebeu pela esquerda e acertou um ótimo cruzamento para Robben, que subiu e escorou. A bola foi no cantinho direito de Muslera e ainda tocou no pé da trave antes de entrar. Era quase impossível a partir dali reverter o placar. O Uruguai foi valente até o fim e não se entregou e, por meio de Maxi Pereira chegou a diminuir, mas, aos 47 já nos acréscimos. Nos minutos finais a pressão uruguaia foi forte, mas, inútil assim como as reclamações contra a arbitragem. No fim Sneijder foi escolhido o melhor do jogo, o Uruguai vai disputar, honrosamente, o terceiro lugar e, merecidamente, a Holanda vai para a final. Resta esperar para ver quem será o outro finalista. A lógica aponta para a Alemanha, mas, a Espanha não será nenhuma surpresa. É um time difícil de bater e muito compacto. Vou torcer por ela por ser mais fraca e não ter ido a uma final. Agora a Alemanha vem jogando muito melhor.

Sunday, July 04, 2010

A penosa classificação da Espanha



Sofrido, chorado, quase que à custa de fórceps a Espanha garantiu sua classificação às semifinais da Copa do Mundo 2010 ao vencer a seleção paraguaia por 1 a 0, no estádio Ellis Park, em Joanesburgo. É uma classificação inédita às semifinais da Copa do Mundo, porém, o futebol que a Fúria tem apresentado, para se dizer o mínimo, tem sido ineficiente. Vencer por um a zero o Paraguai é muito pouco, principalmente, da forma como foi. Basta verificar que foi um primeiro tempo sonolento, com ambas as seleções somente voltando a se empenhar na etapa final. E, por incrível que pareça, quem teve a iniciativa, quem teve a grande oportunidade em primeiro lugar, foi o Paraguai quando, aos 12 minutos, Pique segurou Alcaraz e o árbitro não titubeou marcando o pênalti para seleção paraguaia. Na cobrança, Cardozo bateu com força no lado esquerdo, mas Casillas escolheu o canto certo e defendeu a cobrança sem dar rebote.
Logo, em seguida, no contragolpe, David Villa foi derrubado por Alcaraz e sofreu outro pênalti. Em menos de um minuto, dois pênaltis foram marcados. Xabi Alonso marcou, mas Carlos Baltres mandou voltar a cobrança por causa da invasão. Na repetição, o goleiro paraguaio, Villar, defendeu. No rebote, Villa chutou para o gol sem goleiro, mas a zaga paraguaia conseguiu afastar em cima da linha. Estes pênaltis desperdiçados animaram a partida que ganhou contornos de final de campeonato. E ainda que a Espanha tivesse mais toque de bola faltou ao Paraguai habilidade na finalização. Se tivesse um ou dois atacantes de melhor qualidade na finalização o resultado teria sido outro. Mas, se é se.
E o jogo virou uma roleta russa que o gol espanhol refletiu. Qualquer um se acertasse uma jogada poderia terminar com a partida. A sorte foi espanhola, pois, aos 37 minutos, Iniesta avançou pelo meio campo, tocou para Pedro que chutou na trave. A bola cai nos pés de David Villa, o jogador dribla um paraguaio e chuta na trave esquerda, a bola caprichosamente ainda viaja e toca na trave direita, antes de entrar para o fundo da rede: 1 a 0, Era o gol da classificação espanhola. O Paraguai ainda criaria uma ótima chance, aos 44 minuto. Barrios entrou livre na grande área e chutou em cima de Casillas. A jabulani voltou para Santa Cruz, mas, Casillas fez uma outra grande defesa e evitou o gol. A seleção paraguaia não teve mais forças para nada e nem mesmo o tempo adicional modificou a disposição que a Espanha, com toque de bola, teve para segurar o resultado. A vitória acabou fazendo justiça ao time melhor. E o Paraguai, um time muito limitado, foi muito longe, honrou a camisa que vestiu. A Espanha prossegue e, agora, na semi-final enfrenta a Alemanha com o retrospecto de ser a equipe, entre as finalistas, que, até agora, está bem aquém de suas possibilidades. Mas, cada jogo é um jogo, e não se pode dizer que a Alemanha terá um adversário fácil. Mesmo sem um ataque excepcional Villa é o artilheiro da Copa e sua defesa só levou dois gols.

O chocolate alemão



É verdade que a vitória alemã já estava prevista pelo polvo Paul do aquário em Oberhausen, na Alemanha. O que não se esperava era que a Alemanha vencesse com facilidade e de goleada como venceu. Afinal, historicamente, os europeus não derrotavam os sul-americanos no tempo normal há 20 anos. A última vez que isto aconteceu foi na final da Copa de 1990, em Roma. A Alemanha venceu por 1 a 0, gol do Brehme. Depois disto, houve mais seis partidas, com três vitórias argentinas e três empates. Ou seja, a freguesia alemã já era habitual, mas, não se pode contar com o passado quando a bola rola. È melhor viver o presente.
E o presente trouxe uma Alemanha que não quis dar chances ao adversário, pois, partindo para o ataque, e jogando muito bem, fez logo, aos 3 minutos, 1x0. Numa cobrança de falta de Schweinsteiger, Müller desviou de cabeça, o goleiro mal colocado aceitou e a bola se mandou para o fundo das redes. O abalo emocional fez com que a Argentina ficasse visivelmente nervosa e assustada. E mesmo vencendo por 1x0 a ofensiva alemã continuava forte e os europeus dominaram o confronto na etapa inicial. O trabalho coletivo alemão foi superior, embora a Argentina tivesse mais posse de bola. Porém, só chegava ao ataque para parar sempre na marcação em volta da grande área. A Argentina até se acalmou, passou a tocar mais a bola e a pressionar, mas, não conseguia passar pela forte zaga europeia. A equipe conseguiu fazer boas jogadas de linha de fundo e algumas penetrações na área. A Alemanha passou a viver do contragolpes. E veio o fim do primeiro tempo neste clima.
A Argentina começou o segundo tempo, como era sua obrigação, atacando e, por um tempo, foi melhor que a equipe alemã. No entanto, a Alemanha, bem postada taticamente, voltou a jogar um futebol superior e ter as melhores oportunidades até que, aos 22 minutos, caído, Müller achou Podolski livre na esquerda. O atacante cruzou para Klose que, sozinho, só empurrou para o fundo do gol. Foi uma ducha fria no time argentino que não se achou mais. E seis minutos depois veio o terceiro gol alemão. Schweinsteiger fez belíssima jogada individual e tocou para Friedrich que apenas completou para o gol. E para fechar o chocolate, no fim da partida, mais um de Klose. Ozil recebeu na esquerda e cruzou na medida para o atacante, que emendou e fez um golaço. A Alemanha fez uma partida arrassadora contra o time de Maradona que pareceu sofrer de sonolência crônica. Messi desapareceu em campo. Não havia o que fazer mesmo. O futebol coletivo e vistoso da Alemanha se impôs com uma impressionante facilidade. Não tenho lembrança de ter visto uma seleção argentina tão inapelavelmente batida e o 4x0 diz tudo. Um chocolate alemão com a boa qualidade de um futebol que encheu os olhos.

Saturday, July 03, 2010

O improvável Uruguai



Que se pode esperar de um time que jogou quase todo o tempo pior do que o outro e, no último minuto de uma prorrogação na Copa do Mundo, seu principal atacante faz um pênalti? Aliás, o faz para salvar, pela segunda vez, em cima da linha, com a mão o gol que desclassificaria sua equipe. Foi quase que automático, quase que sem intenção, tanto que Suarez foi expulso e saiu chorando de campo certo de ser o responsável pela desclassificação de seu time. Mas, os deuses do futebol, como se sabem, são caprichosos. E, para espanto geral, Asamoah Gyan, um artilheiro, um batedor de pênaltis quase implacável e um dos grandes nomes de Gana, bateu o pênalti com força. A bola estourou no travessão e não entrou. O olhar de Gyan, registrado pela câmera, seguiu a jabulani pelos céus como se seguisse também a despedida da equipe africana. E a predição, construindo o resultado imponderável, se fez. Quando o jogo termina nem mesmo o ato de coragem e de frieza de Gyan, o primeiro a bater e a converter para sua equipe, evitou que Gana, que teve a chance de encerrar a partida com o pênalti da prorrogação, perdesse por 4 a 2 nos chutes de onze metros. E o vilão, herói predestinado de uma partida épica, Suarez, o uruguaio que tinha posto as mãos na bola, salvando o gol, chorou como criança que reencontrasse os pais. Uma partida, sem dúvida, memorável tanto que o jornalista Paul Flechter, da BBC, afirmpou que “Nunca testemunhei um minuto como esse no futebol” e o fim do jogo com seu toque de vitória, de alegria e de tragédia produziu um dos mais espetaculares instantes da história do futebol de todas as copas.
A alegria dos jogadores da Celeste tornaram o final mágico, empolgante, até mesmo um remédio para os brasileiros que havia, poucas horas antes, visto sua seleção perder de forma tão canhestra. O fim também, o último pênalti convertido por “Loco Abreu”, foi uma pintura que reproduziu com muito mais classe e serenidade o pênalti que havia feito para o Botafogo quando ganharam o campeonato carioca. E verdade seja dita os uruguaios ganharam muito mais que o campeonato na medida em que honraram a determinação e o futebol. Impossível não dizer que Forlan, como sempre foi o mestre, não só fez de falta o gol de empate como ainda bateu e converteu o primeiro pênalti. Impossível também não exaltar o expulso Suarez que o grande nome de ataque do time esteve lá atrás salvando o gols inclusive no ato final com a mão. È a demonstração de um time que imprimiu respeito por sua determinação, por sua vontade de querer ganhar e superar suas limitações. De certa forma, mesmo sem um futebol exuberante, o Uruguai é o time pelo qual torcemos: um time que põe o coração nas chuteiras e faz uma partida virar uma epopéia. Não é a bola que faz o espetáculo, mas, os homens e no no Soccer City de Johannesburgo, os uruguaios foram espetaculares. Toda alegria, agora, é celeste!

Friday, July 02, 2010

A morte anunciada



É bem verdade que não é bom médico quem diagnostica a doença fazendo a autopsia, mas, como no futebol o que vale é o que se apresenta dentro das quatro linhas e nos noventa minutos, seria impossível prever um jogo como o de hoje entre Brasil e Holanda. Havia, é claro, alguns indícios a favor da Holanda como o fato de ter tido até então 100% de aproveitamento e ter sido sempre mais objetivo no seu futebol, porém, havia a premissa de que o Brasil ainda não havia jogado o que se esperava dele. O problema é que acabou a Copa assim. E sua defesa que havia falhado já duas vezes antes tornou a falhar duas vezes num mesmo jogo. E, convenhamos, o segundo gol, apesar de ser uma jogada ensaiada, ainda é desculpável. O primeiro não. O primeiro foi uma batida de cabeça da zaga com o goleiro engolindo um gol na disputa com seu próprio zagueiro, ou seja, um gol bobo, um gol infantil. E um gol faz toda diferença.
O impressionante é que o Brasil, apesar de ter tido menos posse de bola já no primeiro tempo, deu a nítida impressão de que poderia liquidar o jogo a qualquer momento, porém, não o fez. E ao não fazê-lo voltou no segundo tempo com salto alto, como se já o tivesse feito e a Holanda foi aos poucos impondo seu ritmo. Com o gol o time brasileiro desarranjou-se definitivamente e, para por fim, a sua capacidade de reação veio o golpe fatal. A desleal jogada de Felipe Melo era uma morte anunciada. Ele já havia cometido deslize semelhante contra a Costa do Marfim e qualquer comentarista mediano já havia dito e repetido que era um grande risco colocá-lo numa partida importante por ser de sua natureza uma maldade incontida. E, assim como o escorpião não foge de sua natureza, o que se cantava em prosa e verso de Felipe Melo aconteceu: fez o que se esperava dele. Ali se encerravam os sonhos do Brasil ganhar a Copa.
Num torneio como a Copa do Mundo onde cada jogo, em especial na fase de mata-mata, um erro pode ser fatal nós erramos muito mais do que podíamos errar. E tiremos o chapéu para quem merece que se tire. A Holanda, uma equipe capaz, eficiente, fez o que devia ter feito, inclusive os dois gols que nos tornaram a Eslováquia das quartas na medida em que também poderiam ter ganho e perderam pelos mesmos fatídicos 2x1. Futebol é gol. É claro que as jogadas fazem sua beleza. Porém, o jogo tem um objetivo simples: colocar a bola na rede adversária mais vezes. E não é preciso muito esforço para se verificar que é preciso ser competente nos fundamentos. O Brasil foi arrogante, de fato. Entrou no segundo tempo com a empáfia de quem tinha ganho, no entanto, o jogo só está ganho quando termina. E quando terminou a Holanda comemorava o fato de que, com simplicidade e objetividade, mandou Dunga e seus comandados para casa e fez história. Sem choro nem vela o mundo ficou alaranjado.